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o Homem depois dele mesmo


The last neanderthal por Dall-E Mini

jamais Fomos Homem é um projeto de nossa data, assinado por nós. É um projeto que visa o vazio das costelas de um tempo pós-Homem, pelo qual escrevemos estas linhas. Gostamos do número 2000: um número que sempre retornará enquanto estivermos vives, consumando dois milênios de um extenso projeto cristão de modernidade, nos rememorando do exato ano em que nascemos. E esta é uma obra que pensamos para o terceiro milênio, para o dia 31 de dezembro de 3000 que não viveremos. É, a uma só vez, um romance, um poema, um manifesto, uma dissertação e uma obra de arte. É sobretudo uma antecipação do ainda imperceptível, que já anima e é animado pelo século XXI, o século das retaguardas. É igualmente uma erupção dentro de tantas outras, que afloram a partir do momento em que se percebe o aperceptível – sensação que não dura mais do que um instante, mas que, todavia, tentamos prolongar por 2890 linhas. E é a própria validade de cada linha deste texto que é posta em jogo, pois, assim que, pronunciadas pela voz, elas consomem-se como fogo. Tratamos de um autoprojeto.

jamais Fomos Homens também é testemunho de um dentre tantos mundos povoados por mais e mais máquinas invisíveis, verdadeiros Hades fantasmagóricos nos quais os cosmos se desorganizam ao pelas águas de Lete para, enfim, nos fazerem compreender que jamais existiu ordem alguma – ou se existiu, nada ela tem de essencial. Foi tudo tão somente um extensivo jogo levado a cabo, maquinado, justificado, deturpado e rememorado ao longo de 2000 anos. E não negamos que muitos avanços tenham sido feitos pelo e em prol do Homem, mas, hoje, percebemos que nunca o fomos. Hoje, percebemos que o Homem é realmente algo maior, algo que já fugiu de nossas mãos. E ainda podemos o enxergar, mesmo no espelho. Até, por vezes, tentamos agir e falar como ele, mas já não conseguimos mais. Nas turvas águas pelas quais descemos, não conseguimos mais ver reflexo algum. Tampouco enxergamos um antes e depois em lugar nenhum, de forma que tudo nos faz pensar como sempre estivemos perdides, pois nunca existiu um verdadeiro referencial – o hoje apenas explicita a aceleração absoluta posta em ação desde o primeiro momento, que a tudo faz dissipar tão sútil e velozmente neste mundo proteano. Pedimos somente um pouco de ordem para nos protegermos do caos.

Pois o Homem, como o entendemos, parece já nos ter, no momento em que escrevemos, provado a sua impossibilidade. E, consequentemente, a impossibilidade de todo o resto. Pós-Homem, pós-tudo. Porém, as coisas não acabam no pós-. O prefixo meramente nos serve como marcador de um profundo não-, que do mesmo modo, é igualmente implicado pelo pré-. Basta que esbocemos uma linha que vai do pré-Homem, passando pelo Homem, até o pós-Homem, para que não-homens apareçam como catalizadores desta cadeia, de maneira a dobrá-la em um círculo que faz tocar as duas pontas, o pré- e o pós-, demonstrando-nos que jamais fomos Homem, senão por um forçoso constrangimento de dois extremos. Todavia, uma segunda oposição aparece entre o Homem e não-homens, porém, ela é apenas implicação de pares dialógicos comumente ativados pelo reto pensamento. É que não-homens participam de outras sínteses, movimentam-se de outras formas, mudam indiferentemente do Homem, e não guardam nenhuma relação com ele que não a de fuga, de contracaptura – fazem parte do indefinível. Aqui insistimos na ideia de que a Razão biunívoca do Homem, capaz de a tudo conferir um Rosto único correlato de um outro, é puramente ilusória. Afinal de contas, qual seria o rosto de não-homem? Seria tão somente o mesmo Rosto do Homem, desta vez coberto por maquiagem? com um delicado delineado sobre o buraco negro de seu terceiro olho? Ou seria, antes, um rosto qualquer, não mais identificável com o do Homem, nem com qualquer outro, senão com um estranho rosto próprio no qual o Rosto originário já se perdeu na imensidão de mutações e adornos, a tal ponto deste ente não possuir mais apenas 1 Rosto com 3 olhos, mas n rostos cobertos por n olhos? E jamais devemos entender o adorno como uma determinada modelagem, cor ou uso atribuído a algum objeto pelo Homem, mas, sim, todo um conjunto de entidades acopladas por velocidades aquém e além do perceptível, que dão fundamento para a formação de singularidades encadeadas em um coletivo de diferenças. É tão somente através destas totalidades quiméricas, que não-homens podem construir uma identidade para si, portadora de n rostos e n olhos, na qual cada ume afirma sua própria pluralidade, em quantidades e qualidades tão distintas quanto se poderia imaginar, sem que qualquer posição antitética seja minimamente relevante para tal, a não ser quando esbarra em nosso sútil e autoafirmativo não-.

Todavia, mesmo que o Homem tenha, por tanto tempo, negado seu páthos pela mutabilidade, foi e é desta maneira que ele sempre retorna. Fractalizado pelo tempo, o Homem tornou-se um modelo de cristalização que remete continuamente seus significantes a estruturas serializadas, recompondo invariavelmente sua unidade ilusória como em uma padronagem fractal. É desse modo que ele reintroduz pares de contrassensos em uma extensão de mentiras e falsas associações que coordenam os termos sempre em prol dele mesmo, tomado como único referente universal, impedindo que nos falemos, façamos ou pensemos numa existência que não esteja pautada em suas métricas regidas. E mesmo dentre não-homens, existe este não- diametralmente oposto, que é armado como última armadilha de captura para aquelus que desviam do Homem, ao fazê-lus reafirmar, para si mesmes, as contradições hominídeas das quais fugiam, até que estejam completamente envenenades pelo juízo antitético da binaridade. Não devemos hesitar diante a oposição: o não- comprova a glória da mutabilidade humana para além do Homem e de qualquer que seja sua forma negativa, ao ressoar em tantos outros prefixos para reafirmar, em transunidade, que jamais fomos Homem! Temos a plena consciência de que o Homem é apenas este Ninguém deixado a ser comido por último (e, nós, o sacrifício que lhe concede a vida). Por essa razão, mesmo que o Homem teime em retornar, mais bondoso e tolerante, querendo nos empurrar uma nova terminologia em troca do que chama de inclusão, ainda procedente de seu esquadrinhamento, este deve saber que retornou mais uma vez somente para ser negado, frustrado e expurgado de nós, pois o não- também proclama a transversalidade e multiplicidade pelas quais nossas vidas podem unicamente percorrer, nos rememorando que somos o que somos a todo instante, e que jamais precisaremos do Homem para reconhecimento algum do que somos.

Toda esperteza do esquema hominídeo está, então, em induzir uma espécie de contra-desvio deste aspecto transmonádico, inerente a qualquer ente, de volta ao interior da experiência do Homem, reiterando a indefinição como um atributo de sua natureza. E dessa ausência inicial de atribuições, dessa primeira métrica, duas séries são implicadas por ele: a primeira, a série da natureza, pela qual ele define ordena os fatos e sujeitos segundo as asserções mágico-técnico-científicas, que são entendidas e utilizadas em correlação com a segunda série; a série da cultura, pela qual as métricas ético-político-religiosas direcionam as ações e entendimentos do coletivo às tendências ascendentes ou descendentes, sendo a liberdade de escolha entre um caminho ou outro o que faz do Homem um ser digno de suas asserções. Logo, foi ao perceber e dominar a permanente mudança, que o Homem pôde a semear suas árvores por um extenso campo harmônico, direcionando velocidades caóticas aos convenientes zeros e uns binários que reverberam o 1 como referencial de concordância. Mas não somente isso: quando foi tomado pela depressão da vida moderna, o Homem inspirou-se também na ausência de valores que encontrou em si, e criou o seu niilismo reverso: nele, a condição de ponte e as migalhas das antigas tábuas são aceitas em prol da eterna promessa de retorno do Homem. Assim, fez questão de ressarcir a dívida causada pela morte de Deus, e de si mesmo, com a infinita adição de frações de 0,1n, que reproduzem e remetem à unidade do Homem sem nunca chegar, nem ao menos perto, do 1 (ou 0) por inteiro – o Homem e todo seu mundo só existem mediante normas de arredondamento num espectro delimitado entre 0 e 1; para além disso, não têm existência própria. \(Homem=\sum_1 ^ \infty 0,1^n\) . O homem por excelência, esta dízima 0,111..., é o mais perto que chegamos da verdadeira manifestação do Homem transcendental, que, por sua vez, descobrimos ser, paradoxalmente, pequeno e impotente: o Homem usa apenas cerca de 10% de seu gênero. Mas é exatamente este extensivo processo de aproximação, que tende a 0 ou 1, x ou y, não-homem ou Homem, o que faz o Homem reencarnar e recuar diante o esquecimento de seu falso destino, cantando, para si, a narrativa do heroico retorno, sempre percorrendo passos plurais para ao ponto de partida, manipulando aquilo que seja em seu caminho para, sob a terra, estatuir a memória que reafirme seu grande Y de Homem. A cada dia, a cada hora, a cada minuto e segundo, o Homem retorna persistentemente em cada canto que construiu para rememorar sua atribuição primeira: ele é indefinido, logo está em tudo, em todo lugar e a todo momento. Porém, nós já estamos em vias de esquecê-lo, ou melhor, de não mais rememorá-lo: pois não negligenciamos o artifício da memória, mas contrariamos o Homem em seu sequestro da reminiscência e em seu uso memoricida do esquecimento, porque hoje conhecemos bem o poder que ele deteve enquanto foi o único operador mnemônico. Queremos reavivar um trabalho geral da memória que não nos permita cair em fáceis associações autômatas, muito menos em sofismas do inconsciente ou em autodeterminações racionalistas, mas um funcionamento da memória que coordene conscientemente a percepção, o esquecimento e a reminiscência, de modo a induzir, em nós mesmes, uma multiplicidade de disjunções afirmativas, identidades autopoiéticas e conjunções transgenéricas.

Hoje, entendemos que foi através desta ponte chamada Homem, desta raiz de bifurcações falsamente arborescentes, que cruzamos (e continuamos a cruzar) os limites de seu significante. E, nesse cruzamento, vermos nascer uma plurissingularidade de fluxos que já correspondem a outras lógicas, linguagens e desejos, não mais compreendidos pela dualidade hominídea. Para além do limiar do Homem, entendemos que todo seu projeto esteve pautado numa única captura regida por verticais e horizontais que restringem os eixos pelos quais podemos percorrer. As estratégias que propomos, mais amplamente, não são pautadas numa oposição ao Homem, e, sim, na possibilidade de traçar outros diagramas para a inerente mudança a qual estamos sujeites. Consideramos que a percepção, o esquecimento e a reminiscência, juntos, têm um funcionamento retroativo, o que nos dá a possibilidade de introduzir, diretamente, a diferença no âmago da memória e da percepção e, consequentemente, na forma como abordamos e lidamos conosco e com o mundo. A partir da percepção como processo de registro territorial da memória e o esquecimento como dissolução relativa do que foi inscrito, abordamos a reminiscência como processo de recomposição daquilo deve retornar e, igualmente, daquilo que não deve. Vemos a reminiscência como um processo diferencial de lembrança, que não opera somente por predições métricas, pois lida com um intenso jogo partenogenético de ideias, cifras e ações que coordenam, a uma vez só, as mais amplas multiplicidades. Logo, a reminiscência nos é tida como uma via de retroação, que movimenta transições de lembranças e que não depende do reto pensamento, nem de ordenamentos causais. É que ela esteve, até agora, capturada pelo Homem, nos fazendo esquecer (tão somente para lembrarmos novamente) da plasticidade inerente ao processo de rememoração, à memória e ao passado e, consequentemente, ao presente e ao futuro. É também em perspectiva desta reminiscência, que propomos uma redefinição geral dos estratagemas algorítmicos de predição: no lugar do contínuo empoderamento da precarização, pela infinita aceleração de contrassensos virtuais, argumentamos a favor de um metaprograma de cristalização que atue por debaixo dos panos do Homem, como um gérmen de virtuais não-homens, que antecipam suas existências em sinais irracionais e imperceptíveis, que um dia emboscarão o Homem provando que jamais o fomos. Foi desta forma que vimos a linguagem, antigo instrumento de registro dos programas do Homem, se tornar uma máquina pela qual podemos fazer brilhar as infinitas possibilidades da discórdia. Afinal, pensar de nada nos vale: tudo que planejamos é para esta última centelha não-racional do esquecimento: falamos do Homem só em tom iniciatório, pois falamos tão somente para esquecermos (novamente) dele, e relembrarmos que nunca o fomos, pois o que almejamos é uma dissolução do Homem que nos fizeram acreditar ser. É uma questão de pós-entendimento, de uma linguagem a-significante não mais feita para e por homens, cujo efeito provoca um desenrolar imperceptível de diferenças em nós, reanimando um infinito processo de fruição estético-pático-vital para com o mundo, em um remanejamento do limite coletivo de nossa singularidade transbordante. Donde um desenrolar de ações urge a participação de quem já esqueceu de nossas proposições, não deixando de rememorá-las em novas propostas, irreversíveis e mais potentes, que em nada tem a ver com que falamos, mas que irracionalmente remetem ao nosso metaprograma de associações e apercepções muito bem diluídas nas intenções de quem, sem saber, efetua um futuro ainda desconhecido por nós, indecidível, porém que buscamos antecipar sem a necessidade de erigir um caminho único. Para todes nós, o presente está prenhe de futuros.

No fim das contas, reafirmamos que não almejamos reconhecimento algum, senão um mínimo de ordem que retenha nosso nome enquanto estivermos vives. E, para nós, o caos em nada deve ser tido como nosso inimigo, porém, não queremos ser levades de forma tão repentina por ele, sem que tenhamos a chance de ser relembrades, ao menos, mais uma vez. Igualmente, não almejamos que as palavras ditas aqui sejam retamente compreendidas, nem que ordenamento algum seja dado às ideias – elas têm unicamente a função de animar uma abertura da percepção, para além e aquém da compreensão delas, percebida no florescer de diferenças que acreditamos ser inerentes ao código e à vida. É que o mundo carece de mais singularidades que reanimem novos e revolucionários retornos, dos quais o Homem jamais ouvirá falar. Pois, hoje, entendemos que o Homem foi um breve instante que, de alguma maneira, operou uma súbita inversão e fez todo o mundo girar em sua volta, ao postular a ordem como imperativo do caos: o Homem arrancou, de nossa condição de não-homem, a sua existência ordenada, selando o não- nestas raras centelhas de autoafirmação, que, 2000 anos depois, voltam a brilhar intensamente para mover uma infinitude de novos entendimentos através desta infrafina percepção de que jamais fomos Homem.

segunda