do primeiro ao último Homem
jamais fomos Homem foi primeiramente concebido em novembro de 2021, quando terminava de ler Ulysses de James Joyce. Na época, precisava definir algum assunto que conduzisse minha conclusão do bacharelado em artes na UFF e, sem muito entender o porquê naquele momento, lá pelas últimas páginas do livro, tive a ideia de abordar a pré-história como principal temática da minha dissertação. Durante algum tempo, passei atirando para todos os lados, na tentativa de conciliar um pensamento transversal que atravessasse tudo que fosse possível entre os primeiros anos de nossa espécie e o século XXI. Mas foi em Leroi-Gourhan que encontrei as primeiras pistas para o entendimento de um persistente ponto nesta enorme faixa de tempo: o Homem.
Em O Gesto e a Palavra, o antropólogo nos oferece uma extensa linha de raciocínio na qual podemos tomar a mão e o rosto como principais condutores do processo evolutivo da raça humana, sendo remetidos tanto à preensão de alimentos, quanto à formação de ferramentas e linguagens (conteúdos e expressões). Esta linha, caracterizada por modificações anatômicas dos mamíferos superiores e similaridades entre utensílios encontrados em diferentes sítios arqueológicos, tem seu princípio bastante incerto. Revelando tanto quanto possível sobre os processos-chave ocorridos na cadeia evolutiva do Homo sapiens, Leroi-Gourhan deixa, a todo instante, implícita a impossibilidade de encontrar um ponto de origem absoluto para o Homem, pois a nossa espécie é, antes de mais nada, um desenvolvimento particular de tendências transversais à mesma, tais quais as relações de preensão e rostidade, presentes em tantos outros organismos inumanos. Assim, “uma vez atingindo o ponto em que se situam os Antropídeos primitivos, tudo se passa como se tivesse surgido sobre a pirâmide animal, que permanecerá a base de todo o comportamento humano, o vértice de uma outra pirâmide, invertida, cada vez mais gigantesca construída por toda a aparelhagem exteriorizada na cultura. Enquanto que a base em que assentamos é, e só pode continuar a ser, o dispositivo osteomuscular e nervoso resultante da última etapa do mundo animal, a superestrutura, essa, revela-se totalmente artificial e imaginária, tendo nascido das trocas que se desenrolam no exterior entre dois polos da atividade criadora, a face e a mão, no domínio da técnica e da linguagem.” (1987b, p. 221) Ou seja, é somente a partir e dentro de um conjunto de homens trocando sinais e significados, que poderíamos falar de algum Homem significante, o qual, querendo ou não, já estaria implicado previamente nesta coletividade. E ainda nestas primeiras sociedades, os primeiros símbolos são consequência do trabalho mútuo da mão e do rosto, seja quando a primeira assegura o sustento para a segunda se desenvolver, seja quando a segunda serve ao aprimoramento técnico da primeira. Em suma, mão e rosto são retroativos, mas o Homem, por si só, mesmo com uma anatomia plenamente desenvolvida, não tem existência própria. As primeiras ferramentas, os primeiros códigos, os primeiros pares conjugais, os primeiros nômades, as primeiras representações, os primeiros assentamentos, as primeiras cidades, as primeiras leis e as primeiras literaturas: tudo isso, de algum modo, foi preciso para o Homem assegurar o seu próprio estatuto.
No entanto, um abismo ainda persistia entre a formação das primeiras cidades e 16 de junho de 1904. Minha sorte é que ao menos 2 mil anos desta lacuna foram muito bem esboçados por Joyce, de maneira que meu próximo passo fosse em direção à estrutura que fundamenta seu livro, a Odisseia de Homero. Nela, pude contemplar a incrível narrativa do retorno, aquela na qual todo heroísmo de Odisseu está pautado e que, similarmente, faz o legado do Homem persistir. Pois Odisseu é sobrevivente por excelência, não só de Troia, mas do próprio esquecimento que o tempo e o percurso lhe sujeitaram, os quais venceu por astúcia e, não, por força. Para sobreviver ao retorno, Odisseu precisou criar complexas autobiografias, gozando de seu arquétipo metamórfico sem necessariamente buscar uma identidade fixa e perdida nos sedimentos de seu passado – em vez disso, seguiu arquitetando a formação de sua memória e de seu presente, que o fizeram perdurar diante os maiores perigos da viagem. Foi com intuito de vencer este esquecimento que Odisseu abandonou uma mnemotecnia rígida e remissiva, medida pela força e mortalidade, para adentrar em um cosmos caótico no qual apenas aqueles recobertos pela inteligência da linguagem, como ele, podem perdurar. Afinal, a Odisseu não convém ser Odisseu por boa parte da Odisseia, pois, se o fosse, já estaria há tempos no Hades junto a Aquiles e Agamêmnon. Em tudo ele necessita ser calculista, flexível, polítropo: como o tradutor Trajano Vieira afirma, “é o homem em sua dimensão multitrópica, multimodal, plurifacetada, o objeto da Odisseia. No entanto, polytropos não se restringe ao personagem, que se serve do anonimato para preservar a vida ao longo do poema, mas à própria linguagem e estrutura da obra.” (Odisseia, p. 778)
Meu ponto é que, foi através desse teor caleidoscópico da Odisseia, que uma continuidade pôde ser criada por Joyce até Ulysses, o qual traspõe transpõe o épico ao início do século XX, de modo a nos revela como sua narrativa persistiu até a modernidade, na medida em que estabelece uma média, entre Odisseu e Bloom, do que é o “homem moderno”. É que, pessoalmente, vejo Ulysses como uma leitura da Odisseia sem seu revestimento épico: se trata da mesma velha narrativa do Homem tomando forma em um dia qualquer, só que dessa vez mais sincera em suas ambiguidades. Também gosto de pensar em como toda história de Odisseu esteve pautada num relato que o próprio oferece aos feácios, o que, além de nos demonstrar a grande (e talvez maior de todas) aptidão do herói à linguagem, nos faz levantar a possibilidade de uma boa parte da Odisseia ter sido inventada, quem sabe para fins retóricos, escusos ou poéticos, mas que em nada interferiria na primeira (Telemachia) e na última (Nostos) partes da história, visto que esta poderia ser a grande mentira, dentre tantas outras que admite ter contato pelo caminho, que garantiu sua sobrevivência e retorno à família e ao lar. Odisseu é moderno justamente por ser consciente das falácias pelas quais sua heroica memória é formada. E essa maleabilidade, inerente à linguagem (e ao Homem), faz com que percebamos o caráter dúbio da modernidade, de modo que, ao meditar sobre o assunto, uma série de interrogações nos surja daí: em algum momento a linguagem deixou de ser moderna? e, se a linguagem sempre foi moderna, em algum momento ela foi verdadeiramente moderna? a modernidade seria mesmo uma questão cronológica? em que ano ela começou então? e o que aconteceu neste ano para que a linguagem deixasse de ser pré-moderna e começasse a ser moderna? Joyce é mais moderno que Homero? e o que aconteceu com os pré-modernos na modernidade? e em que ano a modernidade terminou? e o que aconteceu com os modernos na pós-modernidade? e, afinal, por que ainda estamos falando de modernidade se estamos na pós-modernidade? (do mesmo modo, faço as mesmas perguntas substituindo linguagem por Homem, e, por que não, modernidade por Homem também: em algum momento o Homem deixou de ser Homem? e, se o Homem sempre foi Homem, em algum momento ele foi verdadeiramente Homem? o Homem seria mesmo uma questão cronológica? em que ano ele nasceu então? e o que aconteceu neste ano para que o Homem deixasse de ser pré-Homem e começasse a ser Homem? Odisseu é mais Homem que Bloom? e o que aconteceu com o pré-Homem na era do Homem? em que ano ele morreu? e o que aconteceu com o Homem na era do pós-Homem? e, afinal, por que ainda estamos falando do Homem se estamos depois dele?).
Todas essas perguntas tiveram sua origem, mais precisamente, nos conceitos de Bruno Latour – a referência a Jamais Fomos Modernos não é à toa. Quando escolhi o título, tinha em mente este livro como alicerce conceitual do trabalho, assim como Joyce fez com Homero. Meu intuito era abrir minha obra a múltiplas conotações através de uma mesma estrutura de fundo capaz de conduzir dois livros tão diferentes. Cito Latour principalmente em razão dos paralelos que vejo entre modernos, pré-modernos e pós-modernos e não-modernos e homens, pré-homens, pós-homens e não-homens – os primeiros são como modelos sob os quais construí os últimos conceitos. Além disso, o título também reverbera, e chama atenção, à elegante articulação afirmativa, e de implicações negativas, formulada pelo antropólogo em jamais fomos, que induz tanto uma negação nunca fomos, quanto uma afirmação sempre fomos não-. Ainda, o papel da linguagem e da escritura, abordada por nós como artifício de manutenção do Homem e de reinvindicação da criação artística, reflete a análise da Constituição moderna por Latour. E, é claro, toda a divisão antropocêntrica entre a natureza e a cultura, implicada pela modernidade, configuram um par binário e análogo, em suas oposições, ao Homem e Mulher, assuntos expressos mais diretamente pelos capítulos Sexta e Sábado. As ideias de purificação e mediação, igualmente, são paralelos importantes no entendimento da formação do Homem (Terça) e da consequente proliferação de não-homens que o primeiro induz (Quarta), tema abordado mais profundamente no anexo (O Homem usa apenas 10% do gênero?) por meio de outras referências.
A divisão em dias, no entanto, foi algo que me surgiu numa etapa mais final do projeto. Não sendo a primeira vez que divido meus trabalhos artísticos desse modo, considero a divisão temporal tão arbitrária quanto qualquer outra, mas a escolho em razão da crescente importância que o conceito de duração vem ganhando num século de aceleração absoluta. O estriamento temporal primeiro, o do dia e da noite, seguido pelo calendário e pelo relógio, atualmente são substituídos pela duração infinita 24/7. Hoje, as horas e as datas estabelecem mais um caráter de numerante do que de índice e, no lugar da série causal-temporal esboçada pelo pensamento histórico, surgem aglomerados de velocidades que percorrem um tempo indefinido, do qual múltiplas durações são constantemente determinadas. 24/7 é uma verdadeira isomorfia do tempo de Aion e, consequentemente, dividir em dias da semana é uma ironia cronológica. E, aqui, devemos entender essa ironia como um mínimo de ordem que precisamos encarnar conscientemente perante o caos absoluto que transcorremos, já que, no fim, sempre nos será requerido um tipo ou outro de ordenamento. Mesmo assim, a aceleração infinita do tempo procria fluxos de ruptura cada vez mais intensos, tornando tudo, ao mesmo tempo, deveras vazio e plural: por todo lado há tão somente amontoados de signos que perderam boa parte de seus significados em razão da excessiva quantidade de recombinações que foram submetidos. A ironia é uma manipulação consciente deste excedente de informações mortificadas pelo niilismo do sofisma virtual. É uma questão de avivar, trazer alma, reanimar uma linguagem cadavérica e entregue à dívida infinita do capitalismo financeiro (e, nesta reformulação, também devemos incluir os novos tipos inumanos e numéricos de linguagem). Pois não é uma questão de reproduzir o cinismo da mentira fascista, muito menos de reerguer os significados universais dos bons velhos tempos da linguagem significante (igualmente fascista), mas de provocar desvios de estranheza e consciência que rompam com a lógica bipartidária e homofílica das recombinações de 0 e 1. É preciso, com a ironia, demonstrar que podemos não apenas encarnar 1 ou 2 resultados, mas 3, 4, 5, 6 e infinitos outros tão (ou mais) bem encarnados quanto o primeiro ou o segundo. Não é uma questão de negar a ausência de significado e, sim, de aproveitar a própria a-significância da linguagem, esboçando novas rotas de fuga à compreensão e à ação. Foi sob esta consciência irônica que escolhi os 7 dias: se estamos falando de origem, não podemos olvidar o grande mito fundador cristão, os 7 primeiros dias, o grande metaestriamento temporal que antecipa até mesmo o ciclo do dia e da noite, reverberando a eterna cadência da criação. Essas 7 durações de 24 horas, aqui, também correspondem aos 18 episódios da Odisseia, nomeados no subtítulo de Joyce, equivalentes aos 24 cantos de Homero, seguido pelas horas estimadas por Clive Hart, em seu guia topográfico, aos inícios dos capítulos de Ulysses. O subtítulo, enfim, confere uma breve e possível interpretação pessoal que concilie essas intertextualidades.
Ademais, algumas outras obras influenciaram minhas percepções sobre o Homem. De início, o Discurso do Método de Descartes me trouxe uma primeira noção de como o Homem pôde ordenar o espaço abstrato em prol de sua individualidade. Ao fazer da racionalidade uma atribuição inata, as suposições cartesianas ofereceram meios de um Homem (qualquer) forjar, para si, um aparato que localize tudo que lhe convém como primeiro, vencendo, então, o ceticismo ao capturá-lo e transpô-lo ao seu interior. Assim, fez da dúvida um mecanismo de sua máquina de guerra conceitual, que não só a tudo torna passível de seu domínio, ao tudo sujeitar à dúvida, como também reafirma, em nome de Deus, tudo do que foi duvidado como verdadeiro, isto é, tudo devidamente esquadrinhado pela moral racionalista. Foi ao desviar para dentro de si todo e qualquer objeto ou produção, que o Homem pôde conferir uma forma interior ao pensamento e, dessa interioridade, deduzir uma universalidade: foi a partir e dentro de seu cogito, a primeira verdade que leva a todas as outras, aquela qual todas estão submetidas, que o Homem afirmou a sua própria existência.
Em minhas pesquisas, algumas semanas depois, descobri que, anos antes, a dúvida já havia sido tratada em um sentido que nos é ainda mais caro por Giovanni Pico Della Mirandola, no seu Discurso Sobre a Dignidade do Homem. Nele, Pico tece uma pluralidade de referências, algumas polêmicas à sua época, como demonstração da concórdia geral que visava às almas e às disciplinas. Foi duvidando da rigidez escolástica de sua época, que o filósofo pôde questionar a natureza do Homem e compreendê-la como uma incerteza essencial. Pressupondo que a tudo no mundo já havia sido conferido uma especificidade por Deus, o Homem, sua última criação, ficou sem atribuição alguma, e, então, sua natureza foi tomada como indefinida. Logo, o livre arbítrio nada mais seria do que o testemunho deste caráter camaleônico do Homem, o “animal celeste”. E é exatamente por causa dessa meia-condição celeste que o Homem possui inclinações ao divino e à dialética, e, consequentemente, a tudo que é claro e distinto, de maneira que a remota inclinação ao bem faça dele digno de seu domínio. No entanto, sua bipartição essencial faz com que ele possa se degenerar ao terreno, sendo seu dever trabalhar na garantia dos direitos dos outros homens, a fim de que todos sejam regenerados ao celeste e deem continuidade ao plano divino. Pois o Homem é elo único do céu e da terra: a ele é permitida a boa magia, aquela que antecipa as ciências e possibilita a compreensão do divino, para manipular a esfera terrestre e selar, a uma só vez, a captura do mundo inteiro. No fim, a concórdia seria uma consequência geral deste projeto, na qual todos poderiam gozar da “amizade concorde pela qual todas as almas não só se acordam numa única Mente que está acima de cada mente, mas também de uma maneira inefável se fundem numa só. Esta amizade que os Pitagóricos dizem ser o fim de toda a filosofia, esta é a paz que Deus põe em ato nos seus céus, que os anjos descendo à terra anunciaram aos homens de boa vontade, a fim de que mediante esta também os homens, subindo ao céu, se tornassem anjos.” (2019, p.71)
Por mais ideal que possa parecer o discurso de Pico ou de Descartes, aqui admitimos que, em parte, o plano do Homem foi bem sucedido. A “paz mundial” proveniente do triunfo do capitalismo, a persistente atitude de pôr em dúvida até mesmo o que foi provado cientificamente e a sincronia transnacional não só do tempo, mas dos corpos, informações e desejos unicamente em serviço do mercado global são exemplos de um parcial êxito desta reunião das almas. E, até mesmo linguisticamente, o Homem conseguiu fixar o referencial da espécie nele mesmo, visto que em boa parte destes textos, e de tantos outros, os termos homem e humano são plenamente intercambiáveis. Quinhentos anos depois desses filósofos, ainda vemos o quanto este projeto talvez nunca tenha se tratado somente de um domínio do concreto pelo Homem, mas, também, do virtual, do abstrato, do processual – e talvez seja esse domínio que as almas sempre almejaram. Fato é que, hoje, o Homem não precisa mais dos antigos significantes, nem de universais, mas somente de frações inscritas em uma extensa matriz de distribuição pela qual o mundo se realiza. Ele trabalha, mais especificamente, no controle das possibilidades pelas quais podemos nos atualizar, pois tem ciência de que o real jamais lhe foi submetido senão por prescrição do que é possível. E, se mesmo após o Homem insistimos em falar e agir segundo os seus referenciais, diluídos na ilusão de que não há outra distribuição que não seja a dele, é porque ele já efetuou sua captura mágica: o Homem realiza-se nele mesmo, revertendo todas as fronteiras a uma única que demarca seu interior, e instaurando globalmente a isomorfia das formas de conteúdo e expressão. É aqui que o sentido de normalização matemático coincide com o social: o Homem reduz toda e qualquer função a uma escala comum de probabilidade, cujo valor máximo é dado por ele mesmo. Esta é a verdadeira fusão dos homens num só, uma conjunção global como tentativa de programar uma única máquina de guerra, uma megamáquina aos moldes da antiguidade sob requintes da modernidade, da qual Ninguém está safo, que se estende sob o mundo inteiro. O que assistimos atualmente é a formação de um meta-Homem, que não é mais uma unidade transcendental, mas a contínua e (in)voluntária reinserção das partes mortas do Homem em tudo que surgiu após sua morte.
Prosseguindo nos caminhos que teci pela pesquisa, entendi que, liberto por Pico dos valores essenciais, e do corpo por Descartes, foi em Nietzsche que o Homem encontrou seu próximo passo rumo ao rompimento completo com a territorialidade hominídea. À golpes de martelo, o Homem estilhaçou seu Rosto e usou os pedaços para construir a ponte de sua superação. Seu novo niilismo, munido do eterno retorno e da transvaloração, o permitiu formular a mais mórbida de suas retóricas: não só Deus está morto, mas o Homem também, e quem o matou foi ele próprio, pois se suicidou depois de matar Deus. Afinal, ele também é aquele que deve ser ultrapassado, e ele sabe que é o principal alvo das profecias de Zaratustra, e não Deus. Então, teve de inventar novas ferramentas, mecanismos, informações, circuitos e próteses que preenchem os vazios de seu cadáver esquartejado, submetido a um eterno estado de coma, flutuando entre sua face evanescente e frígida, e sua outra, reativa e suicida, mas contínua e cinicamente ciborguizado. E isso acontece porque, depois do Homem, deu-se início a um discurso que admite a morte com o intuito de oferecer uma “facilitação” em continuar respirando num mundo que não para de declinar. Logo, surge um duplo movimento de empoderamento e precarização, que, ao correr em direções opostas, inflaciona seus diferenciais a fim de capturar toda superfície através de um comparativo cada vez mais amplo. Devindo um valor totalmente abstrato e externo a todo mundo, que Ninguém consegue saber qual é, e muito menos calcular sua quantia, o Homem transformou-se nesse próprio Ninguém, nesta moeda e língua franca, eternizada pelo decaimento que nos faz acreditar unicamente levar ao seu futuro. O Homem ascendeu ao divino somente para mortificá-lo, tornando-se o padrão abstrato que não pode ser ninguém nem nenhuma coisa, pois é somente um fato analítico, estatístico e majoritário, que orienta as mudanças do real por uma matriz de distribuição e, não mais, por um ponto fixo universal. É claro que o super-Homem, idealmente, não se contentaria com as migalhas do rei ocupando o destruído trono divino, mas até mesmo Nietzsche amou demais o Homem para matá-lo por completo: o último pecado de Zaratustra foi sua compaixão pelo grito de morte do último homem.
Se queremos ultrapassar o último homem, este Ninguém, devemos dar um fim à vontade de declínio que irradia de seu leito, à agonizante canção dos cisnes que toca em seu funeral, às lógicas de reposição que adiam eternamente a sua morte. O problema é que tudo fica mais difícil a partir do momento em que, ao ter de lidar com um mundo de valores abstratos, o Homem descobriu seu dom capitalístico. Acontece que, para gerir o seu estoque, o Homem precisou tomar o último homem como medida padrão de seu sistema de avaliações, o termo comparativo e geral que é virtualmente correlato a todos os outros da série, constantemente é transvalorado a um ponto mais distante. E, justamente por essa razão, o último homem, para além do bem e do mal, opera como um ponto de inversão que se choca com os próprios limites, repelindo-os a fim de conjugar todos os fluxos desterritorializados sob um mesmo conjunto de códigos cada vez mais preciso. E, mesmo os desvios que não podem ser diretamente reconduzidos a uma unidade formal superior, neste momento, acabam tendo suas rotas de fuga atraídas por uma única matriz externa e universal. Desse modo, o Homem pôde fazer, do capital constante, seu principal modelo de abstração, capitalizando, sem distinção, todo e qualquer processo de subjetivação em uma Subjetividade global e não qualificada, expressa por uma variável qualquer: a natureza do Homem se tornou tão indefinida quanto a do capital. No lugar do super-Homem nietzscheano, então, foi criado o meta-Homem capitalístico que injeta seu sobretrabalho mesmo no interior de não-homens, sem lhes requirir previamente uma lógica interna, pois é capaz de reconduzir qualquer produção aos mesmos processos retroativos de subjetivação, que podem mudar de forma e assumir novos sentidos anamórficos e complexos para tão somente concatenar numa fração (inclusiva) do Homem. O meta-Homem é tudo que o pós-Homem quis e não conseguiu ser: ele em nada mais é humano e só existe através da constante recombinação dos órgãos extirpados do Homem, invadido por circuitos e drogas que adiam indefinidamente a sua morte – e, já que o Homem se tornou um literal Ninguém deixado a ser comido por último, antes de morrer, é claro que ele vai nos matar para poder subtrair, comprimir e adicionar novos fragmentos ao seu corpo frio, relíquia imortal daquele que nos fazem acreditar ser por pura e besta nostalgia: estamos nos tornando apenas Órgãos sem Corpo.
Contudo, o funcionamento de não-homens ainda foge à compreensão do meta-Homem, da mesma forma como Gödel prova que a aritmética não pode ser plenamente compreendida através de um número limitado de axiomas. Como dizemos no prefácio, não-homens são como uma dobra que faz tocar as duas pontas, pré- e pós-, demonstrando que nenhuma verdade absoluta ou ponto de início e fim podem ser bem definidos ao Homem. E, mesmo descobrindo facilmente a falácia do Homem, não-homens sabem que ainda é preciso lutar contra as armadilhas do meta-Homem, ou seja, contra a captura estatística que lhes reinsere como terceire incluíde na matriz de distribuição. É que não só tomamos consciência de que vivemos um “pós-tudo”, como também notamos que o próprio sistema de captura se tornou um sistema amolecido e recombinante, que confere valores indistintamente lucráveis em larga escala – foi da mesma forma que o meta-Homem aceitou minerar frações de criptomoedas, que ele aceitou extrair, de quem quer que seja, uma pequena mais-valia de Homem. É porque agora fica claro como tudo sempre se tratou de uma abstração extensiva, de tal maneira que este campo potencial proliferou uma rede de híbridos, cheios de terminais de entrada e de saída, que são tendencialmente orientados à interminável nostalgia do Homem. E, assim, ele pode retornar na estetizada ilusão do retro-Homem, uma continuação isomórfica do antigo Homem homogêneo, reavivado pela cínica forma como sua morte foi conduzida. No fim, a recombinação dos órgãos dilacerados do Homem é o único modo de criação que nos é dado e, então, entendemos que a boa magia, na verdade, era a necromancia. Mas não precisamos dela: o não- é o nosso contragolpe.
Pois, quando digo que o não- faz tocar dois extremos, é por consciência de que o não- é primeiramente afirmativo, e só secundariamente negativo. O não-, diferentemente da captura meta-, não executa um recolhimento geral dos valores. Ao invés disso, atua de ponto em ponto, começando sempre por um ponto qualquer e dirigindo-se a n outros pontos quaisquer, sem necessariamente seguir uma lógica ordenada, senão através da mudança regida por sua singularidade complexa, heterogênea e momentânea. É claro que, devido à rápida resposta da captura meta-, sempre que os valores são atualizados pelo não-, são também registrados, comparados e corrigidos através de um histórico e de seus pesos com fins preditivos. Por essa razão, a captura do meta-Homem parece ser ainda mais mágica do que a do Homem, por mais que seja completamente científica e matemática: ela é capaz de localizar, nomear e classificar os velhos valores do Homem em um ente qualquer, ao passo que reordena a realidade segundo sua única matriz virtual, a qual é capaz de incluir, também, aquelus desviades em quiméricas encarnações de não-homens. A partir dessa valoração, o meta-Homem pode exercer predições que reorientam nossos desejos a partir de súbitos, e aparentemente insignificantes, signos que se repetem por toda, reduzindo nossa identidade a um conjunto de algoritmos que retorna o mesmo valor aproximado. Tudo se passa, então, como em uma megamáquina divinatória, na qual todes participam indistintamente, servindo de inputs de dados e produtores de outputs. E, nela, experienciamos uma estranha nostalgia milenar de nossa espécie, que um dia estivera ordenada segundo um antigo cosmos há muitos anos perdido, mas que, agora, mais uma vez anima a raça humana a nível global em um caosmos artificial – parece que, na metamáquina cibernética, reencontramos a megamáquina arcaica.
É daqui que devemos retornar ao primeiro parágrafo deste posfácio: o porquê de eu ter escolhido a pré-história como principal temática deste projeto. Hoje em dia, entendo que, parcialmente, escolhi esta temática devido a um profundo descontentamento pessoal, não com a teoria, mas com o modo como o mito do ciborgue vem se realizando. Para mim, o manifesto de Donna Haraway foi um importante ponto de início no entendimento do que seria uma identidade contemporânea, o qual muito influenciou na minha. E, para falar a verdade, este trabalho talvez possa ser entendido como uma grande resposta ao que este texto exerceu em mim. É que, a mim, é muito desagradável a maneira como o século XXI faz parecer que a patente do mito do ciborgue foi comprada por acionistas da Wall Street e entregue nas mãos de engenheiros do Vale do Silício. É por essa razão que chamo o nosso século de século das retaguardas. Está tudo tão entregue ao retrô, a essa lógica de recombinação infinita do que um dia foi a cultura, de algo que nunca se produzirá tão épica e belamente quanto antes, justamente porque vivemos depois desses tempos e, também, depois de tudo de bom, de tal maneira que parecemos o tempo todo nos confrontando com a lógica do sampler porque não temos outra saída. E realmente aprendemos com as máquinas cibernéticas como guardar, processar e transmitir informações (e viramos o tipo de pessoa que gosta mais disso do que de criar do zero, pois aprendemos, também, que o zero é somente um valor transitório, um pico e, não, um início). E sem querer, como quando roubamos o fogo dos deuses, ou quando comemos a maçã do Éden, desvelamos os infortúnios que o progresso nos traz. Mas estamos sem energia desta vez, e não parece haver saída alguma, senão a constante relembrança protética de quem nós éramos um dia. Para piorar, tudo é facilitado por um duplo pulsar paradoxal de precarização e empoderamento: nos esquecemos de quem nós somos na mesma medida em que necessitamos de mais dispositivos para lembrar-nos de quem nós somos. Afinal, como pudemos acreditar que não nos contaminariam a nossa memória? que não nos fariam lembrar o que eles querem e não o que nós queremos? realmente acreditamos que o Homem se renderia e sumiria assim tão facilmente? sem nem ao menos ter tomado posse de nossos pensamentos? de nossa identidade?
Mas também precisamos esclarecer que a pré-história em nada nos é uma ideia de regresso, muito menos de determinação de algo inato a nós, pois negamos veemente que aqui tratamos de história ou de ontologia. Também não afirmamos que se trate de um manifesto pré-histórico, neandertal ou algo do tipo. É que agora conseguimos entender que o pré- foi somente algo que nos apareceu como semelhante ao vivenciar o não- no âmago do pós-, descobrindo que, paradoxalmente, o último tem muito mais a ver com o pré- do que com o que quer que esteja posto depois do prefixo. O Homem ou a modernidade não são, de forma alguma, uma fase, mas, sim, um modo específico e majoritário de ordenar os termos universalmente – e é por esta razão que, por mais contraditório que isso possa parecer ser, a melhor comparação que podemos fazer de não-homens é com o próprio Homem. Isso acontece porque, para além das diferenças entre um momento anterior ou posterior, não-homens, assim como o Homem, trabalham na composição duplamente afirmativa-negativa e específica-genérica do mundo. Parece-nos sempre ocorrer assim: primeiro, as cadeias de códigos são negadas e seletos fragmentos restam formando constelações de uma dada completude; então, novos modelos de formação surgem desse composto e são instantaneamente capturados pelo meta-Homem, através do qual cada não-homem é classificade e reordenade à normal do Homem; as atribuições feitas, por sua vez, são processadas por algoritmos de predição e retransmitidas aos canais de entrada de não-homens; e, a partir delas, podemos seguir a dois caminhos: ou voltamos e sofremos uma retroação do sistema, localizando em nós mesmes as frações nostálgicas da matriz do Homem, que sorrateiramente reorientam as mudanças inevitáveis de nossa vida a um único e mesmo estado, que aprendemos a ser nessa progressiva diminuição da função de erro; ou reorientamos nossas mudanças ironicamente, usando as cínicas respostas do meta-Homem como meios de composição criativa e potencial de nossa identidade, causado desvios no fluxo caótico de mudanças que nos é imposto, traçando vetores que reinjetam novos erros no sistema para modificar seus pesos e usá-lo de modo que aprendamos a ser outres. É nessa segunda opção que podemos abraçar, a uma só vez, o caos e um mínimo de ordem que chamamos de não-, pois é nela que vemos uma forma de criação pária à aceleração do meta-Homem, no entanto, infinitamente mais estética, afirmativa e independente dos pútridos órgãos do Homem. Caso nomeássemos um mito, um manifesto, uma narrativa para se opor ao Homem, esta só poderia ser a de não-homens, e não de neandertais, nem de ciborgues. Para além das figuras que velam o mesmo e velho funcionamento, e aquém da antítese e da contradição as quais somos são atribuídes, visamos o prefixo não- como um conceito e existência que movimenta, por toda parte, transições, divergências e desvios às possibilidades dissimuladas que o Homem nos apresenta. Enquanto tratarmos o não- e o 0 apenas como uma situação-limite, ignorando a forma única pela qual maquinam a transmutação dos termos, não venceremos o Homem, nem indo para trás, nem para frente. Mas, também, não deixamos de convocar os ciborgues e os neandertais a um encontro irônico, somente para que vejamos a semelhança entre o primeiro e o último homem e descubramos que ambos são demasiadamente homens.
Também é necessário dizer que o não- não é consequência do pós-. Não-homens de fato se tornaram mais numeroses na medida em que a morte do Homem foi deixando mais explícita a inerente maleabilidade do mesmo, mas, de modo algum, devemos falar que foi sua morte o que deu início ao não-. Nossos processos precedem até mesmo o Homem, e nunca nos foi necessária uma retórica morta para existir. É até engraçado pensar que o Homem, assim como matou Deus para amá-lo ressuscitado, teve de fazer o mesmo consigo, se dilacerando em mil partes para que se espalhasse por todo o mundo. O antigo Homem que achamos ter superado, vive agora fragmentado cosmicamente, existindo como um só fracionado em todes nós. A diferença de não-homens para os pós-homens é que os últimos estão muito mais preocupados com a narrativa de declínio atribuída ao eterno retorno do que com a superação do Homem, que eles apenas fazem ser reconduzido por um niilismo reverso, que a tudo declina com o intuito de oferecer uma solução mais fácil ou impotente para o mais novo problema criado – e, hoje, é de senso comum que qualquer solução vale, porque é realmente tudo muito deprimente, regado a narcóticos e gestos repetitivos, movidos por uma vontade de potências negativas que decresce tudo ao infinito sem nunca verdadeiramente tocar o zero de transição.
No prefácio, também afirmei que, tanto o Homem, quanto não-homens são durações infrafinas, ligadas à emergência da apercepção ao perceptível, imediatas e que devém imperceptível: um verdadeiro zero. Esse ponto, realmente abstrato, é o que julgo ser o domínio final do Homem, e talvez o grande propósito deste trabalho seja uma reinvindicação do mesmo. O ponto de virada do natural ao cultural, do eu ao outro, do interno ao externo, da linguagem à ação, do homem ao não-homem, é este o eixo privilegiado capaz de controlar a reprodução dos dois extremos, sejam eles quais for, direcionando a forma como um e o outro se retroagem. É um domínio conceitual, todavia plenamente real: é um diagrama, um modelo pelo qual o processo será atualizado, um mapa de como proceder. Nele, estão inscritas e sendo traçadas as possíveis rotas de fuga ao aparelho de Estado que o Homem fundou em nossos pensamentos, ideias e desejos. Mas é também por esta via que o Homem ressuscita seu corpo fragmentado, declinando tudo à sua frente sem nada afirmar que não as velhas frações recombinadas em predições homofílicas e isomórficas. Não-homens e o Homem tem apenas em comum a consciência de que decisivo é este grau zero pelos quais os valores do real se atualizam mediante o domínio virtual. Porém, enquanto o Homem ocupa este zero com o intuito de reconduzir tudo à sua padronagem com algoritmos de predição, não-homens remetem a este zero apenas como índice do não-, relativo e imediato, que nos incita a combinar n singularidades num só conjunto híbrido, complexo e metamórfico que chamamos de “eu”. Pois é preciso reanimar todo o domínio do espírito, do virtual, do abstrato e do conceitual para trazer vida aos depauperados campos mentais que herdamos do Homem, transformando o pensar novamente em um processo criativo e estético para com o mundo, produzido para ser propagado em ações futuras dadas num momento muito posterior a este pelo qual você lê estas linhas, não necessariamente cronologicamente, mas num momento em que tudo que aqui falamos já tenha sido esquecido por sua mente para transbordar ao mundo.
Não deixaria, também, de comentar brevemente acerca da confecção da obra. O conteúdo dos dias foi escrito por um conjunto de quatro algoritmos ativados na respectiva ordem: o primeiro, buscador.py, que extrai cerca de cem a duzentos endereços de uma determinada busca no Google; o segundo, copista.py, que copia todo conteúdo possível da lista de sites encontrados; o terceiro, escritor.py, que lê cada cópia e ordena as sequências de palavra numa matriz pela qual produz estatisticamente novos textos; o quarto, seletor.py, que seleciona palavras ou linhas do texto conforme uma determinada lógica. Nestas quatro etapas, há alguns pontos claros que caracterizam uma produção literária do século XXI: um longo banco de dados alimentado por um sistema humano-máquina; a recorrência de sites fora do ar ou vetados à entrada de robôs; a presença erros e informações ilegíveis e invisíveis a olho nu; a leitura a partir de lógicas imaginárias que concedemos à combinação estocástica de palavras; e a recorrência de certos termos emergidos na análise estatística de uma multidão de informações são algumas, dentre tantas outras, tendências da palavra hoje em dia. Além do mais, o algoritmo escritor funciona segundo cadeias de Markov, um modelo estocástico de memória mínima e unitária que combina cadeias de elementos unicamente pela probabilidade geral de um determinado estado atual ser imediatamente sucedido por um termo qualquer da distribuição. Para tanto, o algoritmo realiza uma decupagem em n-gramas, ou seja, em sequências de n palavras, encadeadas em uma “janela” de tamanho n. As estratégias de seleção do quarto algoritmo, figurada pelos diagramas no início de cada capítulo, foram fortemente inspiradas nesse método de divisão em n-gramas, crucial à análise e produção de texto na computação, assim como as cadeias de Markov. Ainda, todas as imagens presentes no trabalho foram geradas pela versão online do DALL-E (mini), inteligência artificial capaz de gerar imagens baseadas em descrições textuais. Da primeira à última, as imagens são resultados das entradas: the first human (capa), the first antropos (epígrafe), the last neanderthal (prefácio), the moment of creation (segunda), the first individual (terça), the first return (quarta), the first word (quinta), the first sex (sexta), the first civilization (sábado), the first rest (domingo), the last Hominidae (posfácio), the last man (hiperbibliografia), the first man’s gender (anexo) e depois do homem (considerações finais), gerada pela segunda versão da IA. Além do mais, a tipografia do trabalho foi escolhida dentre os links encontrados pelo algoritmo buscador, em um oportuno achado na pesquisa por “macho”. A fonte está catalogada no Adobe Fonts com o nome de Macho, sendo, então, a mais singela ironia deste trabalho.
Por fim, gostaria de comentar sobre o peculiar e último capítulo. Assim como Joyce, Homero e Deus, decidi fazer algo especial. Diferentemente dos outros, compostos pela combinação de textos por cadeias de Markov, do imperceptível é composto apenas por zeros, correspondentes a cada espaçamento e quebra de linha dos outros dias. O importante é que estes zeros, para além de literais caracteres de espaçamento, correspondem também a uma contabilização de todas as operações bem sucedidas do algoritmo seletor. Ao dividir o texto, o seletor exclui todos os espaçamentos e quebras de linhas e, logo, todos os espaçamentos que vemos ao longo do texto são provenientes de uma reinserção “artificial” por cada operação de escrita do algoritmo seleto. Mesmo assim, esta ainda é uma pequena parte de todas as vezes que o algoritmo precisou ler o texto e não encontrar correspondência alguma, que permanece completamente imperceptível a nós – e, não, parcialmente como os espaçamentos que podemos verificar. Então, os zeros são, mais profundamente, a manifestação concreta e bem sucedida de todos os processos invisíveis que permitiram o resto do texto ser escrito, simbolizando e ressaltando o espaço que a nossa leitura acredita ignorar. O 0, signo escolhido para encarnar a potência do imperceptível, proclama, assim, 49501 vezes o funcionamento profundo daquilo que nos faz ser o que sejamos ser sem que percebamos. Todavia, este zero não deixa de afirmar a invariável transição do impossível da razão no necessário de fato, ressarcindo-nos com os mais estranhos valores para os quais nosso desejo segue e age imperceptivelmente, nos relembrando que, se jamais fomos, para sermos o que somos, sempre fomos não-.
Leona Machado, Niterói, 8 de julho de 2022.
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